Cork ou Galway? A escolha que todo mundo faz errado antes de ir para a Irlanda

02 fevereiro 2026

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Se você já pesquisou sobre intercâmbio na Irlanda, é quase impossível não ter caído nessa encruzilhada clássica: Cork ou Galway. Parece simples, quase bobo, como escolher janela ou corredor no avião. Mas não é. Essa escolha é mais parecida com decidir se você vai de tênis ou de sapato social para uma caminhada longa. Os dois funcionam, mas um deles vai te machucar se não combinar com o seu objetivo.

O problema é que a maioria das pessoas começa essa decisão pelo lugar errado. Elas perguntam qual cidade é melhor antes mesmo de entender o que querem da experiência. É como escolher o restaurante antes de saber se você está com fome ou só quer um café. E aí, quando a realidade bate, vem a frustração, o aperto financeiro e aquela sensação silenciosa de “acho que escolhi errado”.

Intercâmbio não é turismo estendido. É rotina, boleto, aluguel, trabalho cansativo, inglês travado no começo e, ao mesmo tempo, crescimento pessoal acelerado. Por isso, a pergunta certa nunca foi Cork ou Galway. A pergunta certa sempre foi: quem é você hoje e o que você espera da Irlanda?

Existe um erro muito comum, quase automático, que acontece com quem está planejando o intercâmbio. A pessoa olha o mapa, vê que Cork é a segunda maior cidade do país, associa tamanho com oportunidade e pensa: “cidade maior, mais chances”. Só que a Irlanda não funciona como o Brasil. E é aí que muita gente escorrega.

A Irlanda é pequena, culturalmente concentrada e movida por dois motores muito específicos: turismo e estudantes internacionais. Não é o tamanho da cidade que define a animação, o dinheiro circulando ou a facilidade de trabalho. É o quanto aquela cidade gira em torno de gente chegando, indo embora, consumindo, trabalhando e vivendo em ciclos intensos. Galway entende isso como poucas cidades no país.

Galway é pequena no papel, mas grande na prática. Ela funciona como aquelas festas que acontecem numa casa não muito grande, mas que todo mundo quer ir. Sempre tem alguém chegando, sempre tem música tocando, sempre tem movimento. O turismo não é um detalhe em Galway, é o coração da cidade. E quando uma cidade vive de turismo, tudo muda.

Bares lotam, restaurantes precisam de gente, hotéis giram o ano inteiro, cafés contratam, festivais surgem do nada. Isso cria algo que intercambista sente na pele: oportunidade rápida de trabalho, especialmente para quem ainda não domina o inglês. Não é glamour, não é carreira dos sonhos, mas é o que sustenta a jornada de quem acabou de chegar.

Cork, por outro lado, é como aquela cidade organizada, mais séria, mais previsível. Ela tem universidades fortes, estrutura urbana melhor distribuída e uma vida mais “normal”. Não é parada, mas também não pulsa no mesmo ritmo turístico de Galway. E isso tem consequências práticas que quase ninguém te conta antes do embarque.

Nos últimos anos, Cork ficou mais cara. Muito mais cara. O aluguel subiu rápido, a oferta diminuiu e o salário não acompanhou esse crescimento. O resultado é simples e doloroso: mais gente dividindo quarto, menos privacidade e mais tempo até conseguir se estabilizar. Não é impossível dar certo em Cork, mas exige mais fôlego financeiro e mais paciência no começo.

Aqui entra uma analogia importante. Escolher a cidade do intercâmbio é como escolher o terreno para construir uma casa. Se o solo for duro demais, você vai gastar mais energia só para começar. Galway é um solo mais macio para quem chega agora. Cork é um solo mais firme, que funciona melhor para quem já sabe exatamente o que quer construir.

Quando alguém diz que tem medo de Galway ser “parada”, normalmente está usando a régua errada para medir. Está comparando com capitais gigantes ou com a ideia de cidade grande brasileira. A verdade é que, para padrões irlandeses, Galway é uma das cidades mais vivas do país. Festivais de música, arte, cultura, gastronomia e esportes acontecem o ano inteiro. A cidade foi desenhada para receber gente, e isso muda tudo na experiência diária.

Outro ponto que pesa muito e raramente entra na conversa inicial é o trabalho. Quem vai para a Irlanda como estudante precisa trabalhar. Não é opcional, é parte do plano. E cidades turísticas contratam mais rápido porque a demanda nunca para. Na alta temporada, falta mão de obra. E quando falta mão de obra, o mercado fica menos exigente e mais aberto para quem está começando.

Isso não significa que Cork não tenha trabalho. Tem. Mas o tempo até conseguir o primeiro emprego tende a ser maior. E tempo, no intercâmbio, custa dinheiro e emocional. Cada semana sem trabalho pesa no orçamento e na cabeça. É por isso que tanta gente se frustra não com a cidade em si, mas com a expectativa criada antes de chegar.

Agora, Cork não é vilã dessa história. Longe disso. Para quem tem um objetivo mais acadêmico, especialmente focado em exames como o IELTS, Cork se destaca. Algumas escolas têm resultados excelentes e uma abordagem mais técnica, mais voltada para desempenho em prova. Para quem pensa em mestrado ou em uma carreira mais estruturada, isso faz diferença.

Além disso, áreas como farmacêutica e tecnologia têm presença forte em Cork. Para quem já vem com experiência, inglês mais sólido e plano de médio prazo, a cidade pode fazer muito sentido. Mas repare como tudo isso exige clareza de objetivo. Cork funciona melhor quando você não está improvisando a vida.

Galway é menos exigente nesse sentido. Ela acolhe melhor quem ainda está se descobrindo, quem quer viver a experiência completa do intercâmbio, trabalhar bastante, conhecer gente do mundo inteiro e sentir que está vivendo algo intenso. É uma cidade que permite errar um pouco mais no começo sem cobrar tão caro por isso.

Existe também a ilusão da economia imediata. Muita gente escolhe uma cidade porque a escola é mais barata. Só que o intercâmbio não se paga na matrícula, se paga na rotina. O que você economiza na escola pode perder em aluguel caro, meses sem trabalho ou dificuldade para se manter. Às vezes, pagar um pouco mais na escola e menos no custo de vida é financeiramente mais inteligente no médio prazo.

No fundo, Cork e Galway representam dois estilos de intercâmbio. Cork é planejamento, foco, estrutura e paciência. Galway é movimento, adaptação rápida, trabalho intenso e vida social pulsante. Nenhuma é melhor em absoluto. Elas só respondem perguntas diferentes.

O problema é que muita gente faz a pergunta errada. Em vez de perguntar “qual cidade é melhor”, deveria perguntar “qual cidade combina com a minha fase de vida agora”. Essa simples mudança de perspectiva evita frustrações enormes.

Intercâmbio não é sobre postar foto bonita no Instagram. É sobre acordar cedo para trabalhar, estudar cansado, lidar com sotaque difícil, dividir espaço, sentir saudade e, ao mesmo tempo, crescer como nunca. A cidade certa não é a mais famosa nem a mais indicada nos grupos. É a que te ajuda a sustentar essa jornada sem quebrar no meio do caminho.

Quando você coloca tudo na balança, custo de vida, trabalho, estilo de vida, objetivos acadêmicos e prazo de permanência, a resposta começa a aparecer sozinha. Não como uma verdade absoluta, mas como uma escolha consciente.

No final das contas, Cork ou Galway não é uma disputa. É um espelho. Cada uma reflete um tipo de intercambista. A pergunta é simples, mas profunda: quem você é hoje e quem você quer ser depois dessa experiência?

Se você responder isso com honestidade, a cidade certa deixa de ser dúvida e vira consequência.